Duas semanas depois, já totalmente desligado da redação, fui à cerimônia de entrega de um prêmio de jornalismo em que me inscrevera, fazia tempo. Como as coisas funcionam: eis que me concedem o primeiro lugar numa das categorias, por duas reportagens escritas em 2008.

Um chamado? Indicação de que valia a pena voltar atrás e investir na carreira? O cheque que veio junto com o trofeuzinho sem dúvida foi interessante, mas não teve esse poder todo. Mantive-me firme na ideia de variar, experimentar outros ares – sim, o negócio de livros usados, de novo ele, só que dessa vez com a devida e merecida atenção...
Fim de semana passado, organizando umas coisas aqui em casa, encontrei uma pasta com textos antigos e, dentro, uma matéria que produzi para a faculdade, ainda no primeiro ano. Li devagar, degustando cada frase. É difícil eu gostar de coisa velha assim. E, dessa reportagem, se é que dá para chamá-la assim, gostei – apesar das várias fragilidades e imperfeições, compreensíveis num imberbe estudante.
Há algo de esclarecedor na matéria. A essência do que me atraiu para o jornalismo, talvez. Fez eu perceber que há esperança. Que ainda posso me achar na profissão. Questão apenas de me firmar num posto operacional adequado? Enquanto me dispuser a buscar resposta, é sinal de que me mantenho vivo.
O texto, na íntegra:
UMA VISITA
Todos os dias, milhares de veículos passam pelo quilômetro 34 da Via Anchieta, em São Bernardo do Campo, com destino ao litoral Sul do Estado. Nesse trecho está sediada uma instituição que não tem exatamente o costume de ser o centro das atenções. Apesar de na fachada letras grandes anunciarem Grupo de Apoio Amor à Vida, o local é pouco visado e não se desconfia do que existe ali, nem que espécie de amor à vida o tal grupo oferece.
*
O ônibus encosta, salto sozinho. Observo em volta: não há casas, ou fábricas, coisa alguma. Só as pistas da rodovia. E o verde. Muito verde. Árvores recheadas, mato alto, vegetação preservada. Em dias abertos deve ser bonito por aqui, penso.
Não é o caso, essa tarde. O sol não deu sinais de vida. O vento frio, este sim presente com força cortante, me faz cruzar os braços. Tons cinzas no céu. Estou um tanto melancólico. Pelo cenário e porque já calculo o que vou encontrar.
Toco a campainha. Um minuto. Dois. Olho para o fundo, onde está a casa. Torço-me de um lado para o outro, ergo os pés, à procura de alguém. Nada. Aperto novamente o botão. Ao longe, um homem aparece. Especula-me. Arrisca uns passos para a frente. Oculta-se atrás de uma árvore, a cabecinha aparecendo com duvidável discrição. Coloco-me num canto bem visível.
O homem toma coragem e se revela por completo. Vem em minha direção. O caminho é longo, me inquieto. Afinal posso estender-lhe a mão por entre as grades de ferro do portão, muito prazer, vim conhecer o projeto, formalidades obrigatórias. Ele retribui. E fica parado, esperando.
– Não disseram pra você que eu vinha? – pergunto.
– Não.
– Conversei com o Eduardo, ele falou que não tinha problema dar um pulo aqui agora.
– Tudo bem.
Destrava o cadeado. Acho estranho tudo aquilo. A explicação vem em seguida, quando questiono sobre sua atividade no Grupo:
– Sou morador.
Não disfarço a surpresa. Mas logo me darei conta de que é comum certos moradores executarem um trabalho ou outro – pequenas colaborações, ajudas gerais.
Quem tem autonomia de deslocamento, aproveita.
Chama-se Domingos, o homem. Três anos na instituição. Quero saber detalhes do que surge pelo caminho, enquanto andamos. Ele vai dizendo: nesse quartinho funciona o ateliê. Aqui é a cozinha. Ali, a capela. Até que atingimos o salão central e eu paro de perguntar, Domingos de responder.
Reunidos, uma dúzia de homens. A reação à minha chegada é sutil. Alex, facilmente identificável pelo avental branco, corta a cabelo de um sujeito duns quarenta anos. Ajusta os últimos pormenores, na nuca, com um aparelho de barbear descartável. Aproximo-me deles. Trocamos amenidades. Querem saber qual o meu curso na universidade. Ulysses, tirando os fragmentos de fios que lhe impregnam o pescoço, não perde a chance:
– Fiz dois anos de Educação Física em Guarulhos. Daí, quando peguei essa coisa, parei.
*
Encontro Eduardo, com quem combinara a visita por telefone. Carrega uma bandeja de louça suja para a cozinha. Assim que dispõe de um minuto, guia-me à casa. Os quartos ficam concentrados num corredor comprido e estreito. Entramos num deles.
Ricardo assiste Caldeirão do Huck na TV, deitado, envolvido num gorro e num cachecol rosas. No criado-mudo, um pacote de lenços de papel está com as últimas unidades – a gripe o pegara. É jovem, não mais que trinta anos. Uma tala mantém sua perna esticada.
Sigo com Eduardo. Mostra-me a sala de vídeo – dois sofás, uma Philips 29 polegadas, parte da Videoteca da Folha enfileirada na estante. Do interior da casa alguém o chama. Diz para eu ficar à vontade e sai. Dou passos incertos, inseguro. Ainda no corredor, vejo a porta de um quarto aberta. Uma placa me avisa para não entrar. Espio: prostradas em leitos de hospital, duas senhoras. Estado crítico. Tento puxar conversa. Preciso perguntar três vezes o nome de uma delas até compreender: Conceição.
Eduardo reaparece. Conversa com as duas alegremente, bem humorado. Não se altera nem quando Conceição desata a emitir um ruído desesperado. Arreganha a boca como se sentisse um espasmo de dor infinita, dentes escassos exibidos sem censura. Comprimo os músculos, me arrepio, fito Eduardo, e ele calmo, e ele controlado. Mais tarde me dirá que atitudes como essas são habituais em Conceição. Naquele instante, o que a incomodava era fome. Age da mesma maneira quando está com frio, ou suja, ou querendo algo.
– O café da tarde dela já está vindo – tranquiliza-me o auxiliar de enfermagem.
*
A maioria dos dormitórios comporta quatro camas. O mobiliário é básico, raramente vai além do guarda-roupas. Todos possuem banheiro contíguo, para minimizar os esforços dos moradores com dificuldade ou impossibilidade de locomoção. As pessoas me ignoram. Umas têm o olhar perdido num ponto indefinido. Outras fingem prestar atenção à TV – há um aparelho em cada quarto. Alex ou Eduardo me apresentam cheios de entusiasmo, e o fato de esbarrarem num desalento unânime não lhes afeta o rendimento. Trabalham com gosto e felizes.
*
Chego ao quarto de Ulysses. Está por ali, rodeando, correndo os dedos pelos cabelos recém-aparados. Pergunto se podemos conversar um pouco. Topa. Sentamos na cama. Frente a frente. De início, comentários tolos. Procuramos relaxar. Então disparo:
– Que é mesmo que você fazia antes de vir pra cá?
Foi bombeiro. Cinco anos na corporação. Também policial militar: 13 anos. Alude algo ao Carandiru.
– Invasão? E você participou?
Dia 2 de outubro de 1992. Foi um dos 350 PMs que ocuparam o presídio, no episódio marcado na memória brasileira pelos 111 detentos mortos. Conta detalhes. Presos estupradores degolados por presos assassinos, ou traficantes, ou estelionatários. Corpos jogados contra os policiais. Ele testemunha de tudo. Mais: no meio de tudo.
Na confusão, picadas.
– Como assim?
Os detentos arremessavam objetos pontiagudos por meio de zarabatanas. Fincavam fundo na pele. O sangue esguichava. Desconfia que talvez aí possa ter sido contaminado.
– Então foi durante essa ação?
Não tem certeza. É impossível saber. Sobretudo porque mantinha uma rotina sexual amalucada. Várias mulheres, várias vezes por dia. Sem precaução, alheio a escrúpulos.
– Nessa época a epidemia já tinha se alastrado. Mesmo assim você não ligava?
Ali, no começo da década de 90, a coisa já tomara a dimensão de um monstro. Só que ele estava acobertado. Era policial. Imune a esse tipo de enfermidade. Com ele, evidentemente, jamais aconteceria.
– Que houve depois?
A família o crucificou – os irmãos, porque os pais já haviam morrido. Puseram-no no Projeto Esperança, ONG localizada no Jardim Bonfiglioli, Zona Oeste de São Paulo. Seu endereço por 10 anos. Nunca mais chegou a ter notícias dos únicos parentes.
Durante essa estadia, começou a fazer contato com ela. Ilusão. Anúncios em jornais, procura-se parceiro, parceira. Corresponderam-se. Ela prometeu mil coisas. Vida farta. Morava no interior do Paraná, na cidade de Rolândia. Ulysses foi até ela. As expectativas se frustraram. Ficou longe só um ano.
– De volta a São Paulo, vim aqui para o Grupo.
*
Acompanho Ulysses ao ateliê. Revela que é o único morador a fazer uso do cômodo. Costuma passar as tardes ali, dobrando e colando folhas de revistas velhas, de forma a montar objetos variados. Impressiona um cesto de roupas todo construído desse material. Oferece-me um porta-canetas de presente. Quero pagar. Não aceita.
Ulysses é um homem amargurado. A doença ainda não abalou sua condição física: atacou-lhe as estradas do psicológico. Bloqueou caminhos, cancelou planos. Crê piamente que as pessoas adivinham que tem o negócio dentro de si. Acredita que só de olhá-lo já sabem, e, automático, o renegam – como fizeram os irmãos. Não quer viver em sociedade. Não há coragem para encarar o mundo.
O ex-PM sai pouco da casa. Quando sai, se diverte. Mulheres, sim, é claro. E um pouquinho de álcool.
Não nega que pensa o tempo todo em bebida. Confessa isso ao psicólogo do Grupo, à própria diretora. Mas se controla. Ali dentro, bem dito; porque quando ganha as ruas e os bares lhe surgem à frente, perde a força. Difícil resistir.
Assim vive.
*
É hora do jantar. No refeitório, silêncio: oração. Ricardo, grudado ao gorro e ao cachecol rosas, balbucia palavras de gratidão pelo alimento e puxa o coro do Pai-Nosso. Respeito. Ulysses baixa a cabeça. Reza baixinho, concentrado. Acompanho o grupo. Também vou comer. Fizeram o convite, estava mesmo com fome, vamos lá. Arroz, feijão, carne com batatas. Quase sem sal. Saudável. Muito bom. Dona Fátima, a cozinheira, ouve elogios. Sigo o exemplo, estava uma delícia, dona Fátima, parabéns.
Comigo e com Ulysses na mesa está Paulo. Corre a declarar seu amor por aquele lugar. Passarinhos, verde de sobra, um bocado de terra no quintal, vida sossegada, mansa. Diz adorar. Como se estivesse por opção. Como se fosse uma casa de campo. Evita abordar o motivo que o coloca ali. Não gosta quando Eduardo lhe põe à mão a dose noturna do coquetel de medicamentos. Parece não querer passar pelo constrangimento de engolir aquelas pílulas todas na minha frente. Um tanto ríspido, pede ao funcionário que deixe os remédios em seu quarto. Alguém zomba dele:
– Fresca!
Paulo não liga. Mantém a postura e continua a me contar as glórias de sua vida. Os empregos que teve, em mil lugares diferentes de São Paulo. Ouço, atento, até Alex e Eduardo me chamarem: já vão embora, pegarei carona com eles. Despeço-me. Seguimos numa ambulância até a cidade. Em silêncio.
Maio de 2004








