5.11.09

Raso devaneio sobre o jornalismo

Há tempos não encontro sentido no meu trabalho como jornalista. Não vou aqui entrar numa masturbação mental a respeito: o assunto, além de chato, é infinito – e, sinceramente, não me interessa mais. Apenas menciono que a descrença era tamanha que pedi demissão da revista, mês passado.

Duas semanas depois, já totalmente desligado da redação, fui à cerimônia de entrega de um prêmio de jornalismo em que me inscrevera, fazia tempo. Como as coisas funcionam: eis que me concedem o primeiro lugar numa das categorias, por duas reportagens escritas em 2008.


Um chamado? Indicação de que valia a pena voltar atrás e investir na carreira? O cheque que veio junto com o trofeuzinho sem dúvida foi interessante, mas não teve esse poder todo. Mantive-me firme na ideia de variar, experimentar outros ares – sim, o negócio de livros usados, de novo ele, só que dessa vez com a devida e merecida atenção...

Fim de semana passado, organizando umas coisas aqui em casa, encontrei uma pasta com textos antigos e, dentro, uma matéria que produzi para a faculdade, ainda no primeiro ano. Li devagar, degustando cada frase. É difícil eu gostar de coisa velha assim. E, dessa reportagem, se é que dá para chamá-la assim, gostei – apesar das várias fragilidades e imperfeições, compreensíveis num imberbe estudante.

Há algo de esclarecedor na matéria. A essência do que me atraiu para o jornalismo, talvez. Fez eu perceber que há esperança. Que ainda posso me achar na profissão. Questão apenas de me firmar num posto operacional adequado? Enquanto me dispuser a buscar resposta, é sinal de que me mantenho vivo.

O texto, na íntegra:

UMA VISITA

Todos os dias, milhares de veículos passam pelo quilômetro 34 da Via Anchieta, em São Bernardo do Campo, com destino ao litoral Sul do Estado. Nesse trecho está sediada uma instituição que não tem exatamente o costume de ser o centro das atenções. Apesar de na fachada letras grandes anunciarem Grupo de Apoio Amor à Vida, o local é pouco visado e não se desconfia do que existe ali, nem que espécie de amor à vida o tal grupo oferece.

*

O ônibus encosta, salto sozinho. Observo em volta: não há casas, ou fábricas, coisa alguma. Só as pistas da rodovia. E o verde. Muito verde. Árvores recheadas, mato alto, vegetação preservada. Em dias abertos deve ser bonito por aqui, penso.

Não é o caso, essa tarde. O sol não deu sinais de vida. O vento frio, este sim presente com força cortante, me faz cruzar os braços. Tons cinzas no céu. Estou um tanto melancólico. Pelo cenário e porque já calculo o que vou encontrar.

Toco a campainha. Um minuto. Dois. Olho para o fundo, onde está a casa. Torço-me de um lado para o outro, ergo os pés, à procura de alguém. Nada. Aperto novamente o botão. Ao longe, um homem aparece. Especula-me. Arrisca uns passos para a frente. Oculta-se atrás de uma árvore, a cabecinha aparecendo com duvidável discrição. Coloco-me num canto bem visível.

O homem toma coragem e se revela por completo. Vem em minha direção. O caminho é longo, me inquieto. Afinal posso estender-lhe a mão por entre as grades de ferro do portão, muito prazer, vim conhecer o projeto, formalidades obrigatórias. Ele retribui. E fica parado, esperando.

– Não disseram pra você que eu vinha? – pergunto.

– Não.

– Conversei com o Eduardo, ele falou que não tinha problema dar um pulo aqui agora.

– Tudo bem.

Destrava o cadeado. Acho estranho tudo aquilo. A explicação vem em seguida, quando questiono sobre sua atividade no Grupo:

– Sou morador.

Não disfarço a surpresa. Mas logo me darei conta de que é comum certos moradores executarem um trabalho ou outro – pequenas colaborações, ajudas gerais.

Quem tem autonomia de deslocamento, aproveita.

Chama-se Domingos, o homem. Três anos na instituição. Quero saber detalhes do que surge pelo caminho, enquanto andamos. Ele vai dizendo: nesse quartinho funciona o ateliê. Aqui é a cozinha. Ali, a capela. Até que atingimos o salão central e eu paro de perguntar, Domingos de responder.

Reunidos, uma dúzia de homens. A reação à minha chegada é sutil. Alex, facilmente identificável pelo avental branco, corta a cabelo de um sujeito duns quarenta anos. Ajusta os últimos pormenores, na nuca, com um aparelho de barbear descartável. Aproximo-me deles. Trocamos amenidades. Querem saber qual o meu curso na universidade. Ulysses, tirando os fragmentos de fios que lhe impregnam o pescoço, não perde a chance:

– Fiz dois anos de Educação Física em Guarulhos. Daí, quando peguei essa coisa, parei.

*

Encontro Eduardo, com quem combinara a visita por telefone. Carrega uma bandeja de louça suja para a cozinha. Assim que dispõe de um minuto, guia-me à casa. Os quartos ficam concentrados num corredor comprido e estreito. Entramos num deles.

Ricardo assiste Caldeirão do Huck na TV, deitado, envolvido num gorro e num cachecol rosas. No criado-mudo, um pacote de lenços de papel está com as últimas unidades – a gripe o pegara. É jovem, não mais que trinta anos. Uma tala mantém sua perna esticada.

Sigo com Eduardo. Mostra-me a sala de vídeo – dois sofás, uma Philips 29 polegadas, parte da Videoteca da Folha enfileirada na estante. Do interior da casa alguém o chama. Diz para eu ficar à vontade e sai. Dou passos incertos, inseguro. Ainda no corredor, vejo a porta de um quarto aberta. Uma placa me avisa para não entrar. Espio: prostradas em leitos de hospital, duas senhoras. Estado crítico. Tento puxar conversa. Preciso perguntar três vezes o nome de uma delas até compreender: Conceição.

Eduardo reaparece. Conversa com as duas alegremente, bem humorado. Não se altera nem quando Conceição desata a emitir um ruído desesperado. Arreganha a boca como se sentisse um espasmo de dor infinita, dentes escassos exibidos sem censura. Comprimo os músculos, me arrepio, fito Eduardo, e ele calmo, e ele controlado. Mais tarde me dirá que atitudes como essas são habituais em Conceição. Naquele instante, o que a incomodava era fome. Age da mesma maneira quando está com frio, ou suja, ou querendo algo.

– O café da tarde dela já está vindo – tranquiliza-me o auxiliar de enfermagem.

*

A maioria dos dormitórios comporta quatro camas. O mobiliário é básico, raramente vai além do guarda-roupas. Todos possuem banheiro contíguo, para minimizar os esforços dos moradores com dificuldade ou impossibilidade de locomoção. As pessoas me ignoram. Umas têm o olhar perdido num ponto indefinido. Outras fingem prestar atenção à TV – há um aparelho em cada quarto. Alex ou Eduardo me apresentam cheios de entusiasmo, e o fato de esbarrarem num desalento unânime não lhes afeta o rendimento. Trabalham com gosto e felizes.

*

Chego ao quarto de Ulysses. Está por ali, rodeando, correndo os dedos pelos cabelos recém-aparados. Pergunto se podemos conversar um pouco. Topa. Sentamos na cama. Frente a frente. De início, comentários tolos. Procuramos relaxar. Então disparo:

– Que é mesmo que você fazia antes de vir pra cá?

Foi bombeiro. Cinco anos na corporação. Também policial militar: 13 anos. Alude algo ao Carandiru.

– Invasão? E você participou?

Dia 2 de outubro de 1992. Foi um dos 350 PMs que ocuparam o presídio, no episódio marcado na memória brasileira pelos 111 detentos mortos. Conta detalhes. Presos estupradores degolados por presos assassinos, ou traficantes, ou estelionatários. Corpos jogados contra os policiais. Ele testemunha de tudo. Mais: no meio de tudo.

Na confusão, picadas.

– Como assim?

Os detentos arremessavam objetos pontiagudos por meio de zarabatanas. Fincavam fundo na pele. O sangue esguichava. Desconfia que talvez aí possa ter sido contaminado.

– Então foi durante essa ação?

Não tem certeza. É impossível saber. Sobretudo porque mantinha uma rotina sexual amalucada. Várias mulheres, várias vezes por dia. Sem precaução, alheio a escrúpulos.

– Nessa época a epidemia já tinha se alastrado. Mesmo assim você não ligava?

Ali, no começo da década de 90, a coisa já tomara a dimensão de um monstro. Só que ele estava acobertado. Era policial. Imune a esse tipo de enfermidade. Com ele, evidentemente, jamais aconteceria.

– Que houve depois?

A família o crucificou – os irmãos, porque os pais já haviam morrido. Puseram-no no Projeto Esperança, ONG localizada no Jardim Bonfiglioli, Zona Oeste de São Paulo. Seu endereço por 10 anos. Nunca mais chegou a ter notícias dos únicos parentes.

Durante essa estadia, começou a fazer contato com ela. Ilusão. Anúncios em jornais, procura-se parceiro, parceira. Corresponderam-se. Ela prometeu mil coisas. Vida farta. Morava no interior do Paraná, na cidade de Rolândia. Ulysses foi até ela. As expectativas se frustraram. Ficou longe só um ano.

– De volta a São Paulo, vim aqui para o Grupo.

*

Acompanho Ulysses ao ateliê. Revela que é o único morador a fazer uso do cômodo. Costuma passar as tardes ali, dobrando e colando folhas de revistas velhas, de forma a montar objetos variados. Impressiona um cesto de roupas todo construído desse material. Oferece-me um porta-canetas de presente. Quero pagar. Não aceita.

Ulysses é um homem amargurado. A doença ainda não abalou sua condição física: atacou-lhe as estradas do psicológico. Bloqueou caminhos, cancelou planos. Crê piamente que as pessoas adivinham que tem o negócio dentro de si. Acredita que só de olhá-lo já sabem, e, automático, o renegam – como fizeram os irmãos. Não quer viver em sociedade. Não há coragem para encarar o mundo.

O ex-PM sai pouco da casa. Quando sai, se diverte. Mulheres, sim, é claro. E um pouquinho de álcool.

Não nega que pensa o tempo todo em bebida. Confessa isso ao psicólogo do Grupo, à própria diretora. Mas se controla. Ali dentro, bem dito; porque quando ganha as ruas e os bares lhe surgem à frente, perde a força. Difícil resistir.

Assim vive.

*

É hora do jantar. No refeitório, silêncio: oração. Ricardo, grudado ao gorro e ao cachecol rosas, balbucia palavras de gratidão pelo alimento e puxa o coro do Pai-Nosso. Respeito. Ulysses baixa a cabeça. Reza baixinho, concentrado. Acompanho o grupo. Também vou comer. Fizeram o convite, estava mesmo com fome, vamos lá. Arroz, feijão, carne com batatas. Quase sem sal. Saudável. Muito bom. Dona Fátima, a cozinheira, ouve elogios. Sigo o exemplo, estava uma delícia, dona Fátima, parabéns.

Comigo e com Ulysses na mesa está Paulo. Corre a declarar seu amor por aquele lugar. Passarinhos, verde de sobra, um bocado de terra no quintal, vida sossegada, mansa. Diz adorar. Como se estivesse por opção. Como se fosse uma casa de campo. Evita abordar o motivo que o coloca ali. Não gosta quando Eduardo lhe põe à mão a dose noturna do coquetel de medicamentos. Parece não querer passar pelo constrangimento de engolir aquelas pílulas todas na minha frente. Um tanto ríspido, pede ao funcionário que deixe os remédios em seu quarto. Alguém zomba dele:

– Fresca!

Paulo não liga. Mantém a postura e continua a me contar as glórias de sua vida. Os empregos que teve, em mil lugares diferentes de São Paulo. Ouço, atento, até Alex e Eduardo me chamarem: já vão embora, pegarei carona com eles. Despeço-me. Seguimos numa ambulância até a cidade. Em silêncio.

Maio de 2004

22.9.09

Sem credibilidade

Há dois anos saio da agência bancária no centro e sigo para a esquerda, quando quase sempre, na verdade, quero ir para a direita. Percebo o erro em três passos, baixo a cabeça, suspiro, ponho-me na direção certa, pelo caminho cumprimentando as moças que ali fazem ponto, à luz do dia – e no riso delas leio muito mais zombaria do que propriamente oferecimento.

17.9.09

Breve pensamento durante higienização

Nos primórdios, os designers de vasos sanitários deviam ser assim, que nem eu: diligentes em interferir no sonho de beleza e aprazíveis aromas florais perseguido pelos homens. Só isso para explicar a escolha da cor das peças, um branco duma intensidade que nos faz engolir, a cada sentada, em detalhes sinistros, nossa essência miseravelmente podre e fedorenta.

16.9.09

Recado

Ao sujeito que me manda ligar para 0800-772-7272727272727272 porque este veículo está sendo roubado e é monitorado pela Car System, peço que vá ao quinto dos infernos e lá se enterre (ele, sua voz de marginal, a empresa para a qual trabalha e o veículo que monitora, juntamente com o respectivo proprietário), estou pouco me lixando à ocorrência – a bem da verdade, se pudesse, daria meus agradecimentos ao senhor ladrão, que com seu gesto corajoso e altruísta poupa meus ouvidos, meus pulmões e toda a cidade de mais um maldito instrumento do egoísmo e do caos.

15.9.09

La Putita

Num ônibus, trem ou metrô, eis que me deparo, vez ou outra, com a mocinha num mundo à parte, entregue ao pequeno espelho de mão, maquiando-se. Aos olhares curiosos, devolve indiferença, centrada nos pós, a besuntar cílios, esfregar lábios.

Me ajeito no assento; se de pé, troco a perna de apoio. Ora essa. Me sinto meio como o personagem do Chico Buarque em “As Atrizes”, cujas amantes tomam banho na sua frente para sair com outros. Embora o poeta jure que nunca se importou (olhos pousados nos “corpos errantes / peitinhos assaz / bundinhas assim”), eu me importo, é claro que me importo! Então me atira na cara que sou um figurante, que penteei o cabelo de besta, borrifei o perfume de trouxa, e quer se sair livre, gostosa e pintada para encontrar o namoradinho?, engraçar-se nele, sacar-lhe as ceroulas?

A essa mulher, que escancara o desprezo pelo coletivo em favor da paixãozite de momento (intitulemo-na, assim, sem maiores propósitos, apenas por gosto às caracterizações, de La Putita), a essa nobre moça o destino há de responder à altura: colocará, do outro lado da cidade, num ônibus, trem ou metrô qualquer, uma segunda mocinha, coração acelerado, úmida, a caminho de mais um encontro secreto com, digamos, El Comedor de Otárias – ele, precisamente ele, o foco de louvor de La Putita, o homem para quem ela se maquiava em público e a quem julgava, mão, braço e tronco no fogo, acima de todas as suspeitas.

19.8.09

Embate do desgosto

Perfeito o título do álbum de fotos de um Zé aleatório no Orkut. Um elemento faz oposição ao outro, não se misturam, duelam cada qual numa ponta do ringue: amigos x diversão.

Qual deles você prefere?

Voto em ficar na plateia, comendo pipoca doce e assistindo as cheerleaders.

18.8.09

Me fizeram acordar às 8h

O taxista pergunta se tenho preferência por algum caminho. Evidente que não. Por isso pego táxi: porque não dirijo, não sei os caminhos. “O que chega mais rápido”, digo o óbvio, que ele já devia saber, e saco da mochila o MP3.

Mal ajusto os fones, tenho de tirá-los do ouvido, me inclinar para frente, pedir educadamente:

“O senhor faça o favor de manter as janelas abertas, sim?”

Volto a me trancar nos fones, enquanto o vidro desce vagarosamente à posição original. Apoio o braço na janela, para garantir que não haverá nova interferência. Sujeito atrevido. Quem pediu ar-condicionado?

Me fita pelo retrovisor. Insiste em me fitar pelo retrovisor. Há um tom de hostilidade nesse olhar.
Azar o dele, se está bravinho: passo ao lado esquerdo do banco. Agora sim: boa música, vento ao rosto, livre da vigilância.

Duas avenidas adiante, fala alguma coisa. Tiro os fones, me aproximo, contrariado.

“Perguntei se essa rua que você vai fica perto da ponte ou mais pra cá da Bandeirantes.”

E como diabos vou saber, meu senhor? Acha que preparei um mapinha antes de sair de casa? Vamos separar as tarefas: eu bolo questões imbecis pros meus entrevistados cacetes, você me leva até o endereço x. Ok? Pra isso é que estou (a empresa está) pagando 50 reais pela corrida, e não 2,30 da passagem do ônibus. O senhor que consulte o guia, o GPS, faça uso da boa alma do dono do banca, do seu colega taxista, do bombadinho correndo com o cachorro fedorento.

“Não faço ideia, infelizmente”, sou um gentleman.

“Tenho quase certeza que é ali pro meio...”, língua entre os dentes, mete-se numa viela esquisita.

Ergo o volume, apago as luzes.

29.7.09

Carta aberta ao governador José Serra

Prezado governador,

Gostaria de registrar meu descontentamento com um detalhe miseravelmente falho no projeto dos novos trens da Linha Verde do metrô. A distância entre os assentos frontais e laterais é insuficiente para comportar passageiros que possuam mais de um metro e meio de altura. Nesse referido ponto de cruzamento dos bancos ocorre um roçar constrangedor de joelhos e coxas, coxas e joelhos. Se um dos cidadãos ostenta certa largura avantajada, qualquer mínima possibilidade de conforto se esvai ao impossível.

O triste é que, no resto, os novos trens são excelentes: ar-condicionado agradável, isolamento do ruído externo, corredores espaçosos... 31,2 milhões de reais investidos em cada unidade e não me desce que os fabricantes tenham permitido escapar esse aspecto fundamental de cálculo de dimensão corpórea da população paulistana.

As pessoas estão crescendo, governador. Meu metro e noventa e dois, veja o senhor, que dez anos atrás podia ser considerado excessivo, hoje banalizou-se entre adolescentes de 14, 15 anos. Além do mais, come-se como nunca. Bundas incham, culotes despontam feito bolhas molengas, pernas dilatam-se entupidas de gorduras trans. Ou se considera tal decadência na composição dos assentos dos transportes públicos, ou suspendem-se os assentos, e todos ficam logo de pé!

Acho complicado, concordo, que se mude alguma coisa agora que os veículos já estão prontos e circulando. Mas deixo a ressalva para futuras aquisições do Estado. A Linha Amarela está aí para ser inaugurada, e será uma decepção enorme se o aperto persistir nos seus trens cheirando a talco de neném.


Deste bom e honesto contribuinte,

T.O.

A dona de cachecol rosa certamente não estaria com as pernocas cruzadas se tivesse alguém sentado no banco à frente dela

19.6.09

Moda feminina

Então o negócio agora são as botas. Foram as blusinhas de gordas (apertadas em cima, pra ressaltarem os peitos, e frouxas embaixo, pra ocultarem a gelatina adiposa), foram as Melissas (sandálias coloridas de plástico que passaram a ser vistas nos pés de coroas, trintonas e periguetes, bando de sem infância e sem noção), foram os saltos plataforma (a banalização das botas ortopédicas) e, bem, agora são as botas de inverno – vistas em absolutamente todas as partes, cores, texturas e classes sociais.

Apenas a eliminação daquele colosso na sola (a infame plataforma) é bastante para transportar o novo modismo feminino do ridículo ao sensual, do brochante ao estimulante, do patético ao acertado. Metida nas tais botas da moda – calça jeans justa como complemento –, qualquer mulher vira uma cavala de respeito, possante e potrancuda de uma forma que me deixa enrubescido.

Se fosse padre, proibiria a entrada na casa de deus com esses calçados.

Como tudo que é proibido é bom (ainda mais sob censura da igreja), registro minha aprovação, e indico: colecionem, meninas.

Foto: odiariodeumafashionista.blogs.sapo.pt
Desconsiderem as boticas do meio, incapazes de produzir o referido efeito equino

Pra terminar de foder

Está extinta a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Um baque em todos os que se sujeitaram, humilhados, ao embuste da universidade e seus detestáveis compostos humanos.

Muito pior (e menos alardeado), no entanto, foi o fim do direito a prisão especial para quem tem curso superior. Lembro que a notícia, de poucos meses atrás, me pôs seriamente lamentoso e preocupado.

2.6.09

Coisas boas de se morar numa quitinete de 25 m²

– Cria-se, na marra, um importante desapego às coisas materiais, reduzindo-se a existência ao mínimo necessário, o que te transforma involuntariamente num benfeitor da natureza, num cara interessante aos olhos das pés-sujas anti-capitalistas da USP e, por fim, faz de você um quase budista com 70% da passagem garantida para o céu.

– No inverno, compra-se um aquecedor vagabundo de 30 reais e, ualá!, tem-se a casa inteirinha quente como coração de mãe e fogo no rabo de periguete.

26.5.09

Fim de noite

Saio tarde da redação – passam das dez –, cabeça inchada de computador, de texto, corpo exaurido pelo ar que não circula, pela cadeira que não ajusta. As ruas do Baixo Bom Retiro, que ao sol fervilham confusão, neste avançado de hora estão desertas, escuras. Caminho sem pressa, alheio aos vultos que cruzam comigo, aos borrões que me ultrapassam acelerados. Duas quadras acima, um sobressalto: há fones nos meus ouvidos. Coloquei-os num automatismo, lembro, enquanto descia as escadas do prédio. Estou ficando louco. Mão no bolso da calça, ligo o MP3 – e enquanto espero o processamento do aparelho, sou surpreendido por uma fustigante rajada de vento. Soa a primeira música; sigo tranquilo.

O ônibus demora, não ligo. Quando chega, está vazio, e entre os poucos passageiros, ninguém me olha na cara, sequer notam minha presença. Acho lindo, isso. Desabo num banco qualquer, inclino a cabeça para trás, olhos fechados. A música amacia o trepidar do monstro em movimento, enterro-me nela. À proximidade da hora de descer, acato uma vontadezinha repentina e salto dois pontos antes do habitual – quero mais vento ao rosto, mais caminhar aleatório.

Meus sapatos são planos, de solado mínimo, sinto os relevos do chão, os contornos dos pedregulhos – e gosto. Uma nova ventania se forma, enérgica; me eriça a pele com seu gelo, me atira aos olhos a imundice das ruas – e, não há dúvida, extraio um bom sabor dessa hostilidade, transferido pela música a um plano alternativo, de inversão de coisas, em que aborrecimentos viram satisfações, incômodos ganham ares de contentamento. Ao entrar no abrigo subterrâneo do metrô, estou rígido de frio, meio cego pela poeira nas lentes de contato, e apesar disso (e da mancha vermelha de terra na camiseta, e do latejo no casco dos pés), sorrio sozinho – chego mesmo a ensaiar dois passos para trás, um passo para frente, meia rodopiada, um certo menear vertical do pescoço.

No MP3, termina uma faixa, começa outra, e o estado de inversão de coisas se realimenta, indestrutível. São cinco minutos até a chegada do primeiro metrô, suplício à minha inquietação cotidiana – mas dessa vez não me importo. Ao contrário: permaneço sentado com a mochila sobre o colo, por que não esperar o próximo? Espero, relaxado – quase feliz, arrisco dizer. Vem lotado o trem seguinte, acho um cantinho, “com licença, senhora?”, suponho haver falado, e talvez de fato tenha sido assim, floreado ainda de um “muito obrigado” impensável outrora.

O percurso é encurtado no inconsciente da abstração, quando dou por mim já estou de novo na superfície, a poucos metros de casa. A sobriedade reatada me informa que tenho fome, e, ato contínuo, como a testar a autenticidade da inversão de coisas, acrescenta lamentosa que não há comida na geladeira, os armários estão às moscas, o bolo no forno eu comera no dia anterior, escafederam-se inclusive os farelos.

Pois não me abalo, restam algumas músicas a me tontear de deleite. Mudo o rumo, sigo em direção ao supermercado 24 horas; comprarei uma lasanha à bolonhesa, vinho tinto barato para acompanhar – a noite há de terminar bem.


24.4.09

Não está certo

Me incomoda o flutuar dos objetos nas sinalizações dos banheiros. Tome-se por base o exemplo acima: todos os elementos estão largados no espaço, destaque ao mecanismo de descarga, solidamente fixado numa estrutura kardecista – sem falar em outras incoerências, como a falta de torneira na pia e a impessoalidade fantasmagórica do homenzinho sem pescoço. Não há desculpa, é uma imagem que se pretende séria, transmissora de recados relevantes – não pode se valer do abstracionismo dos artistas, da licença poética dos pintores.

Sutis ajustes que já melhoram muito e apaziguam minha inquietação (apesar de criarem novos absurdos, mas enfim, a perfeição absoluta é irreal, dizia Proust):

Os bons companheiros

A secretária a quem os três cortejávamos chegou ao escritório irradiando felicidade:

– Estou grávida!

Já ia pela terceira semana, contava, entre sorrisos e abraços, a fila para cumprimentos cada minuto maior. Estávamos no começo de janeiro, ao que o Amadeu sabiamente concluiu:

– É filho do réveillon em Maresias.

– Ou da noite de natal no sítio, enquanto assistiam à Missa do Galo – cogitou o Ralf.

O pai era um ex-estagiário do financeiro, magricela e insosso. Tinha seus vinte e quatro anos e pegava a moça não fazia três meses. Sugada debaixo dos nossos narizes com papinhos românticos, jantares à luz de velas.

– É o fim da esperança – lamentou o Amadeu.

Cabisbaixos, brincávamos com a comida, sem vontade de almoçar. Ralf soltou:

– Não sei vocês, mas eu gosto das grávidas, o formato da barriga me dá tesão.

Olhamos para ele, indagativos. Ergueu os ombros, fisgou uma batata, sondando o gosto.

– E outra – continuou –, os peitos vão crescer. Imaginem tudo aquilo com peitos grandes.

Era blefe. Nem o próprio Ralf caía na sua falácia otimista-tarada, víamos pela dificuldade com que engolia o mísero pedaço de batata.

Era triste. A quarta boazuda que perdíamos, os pangarés da administração. Já estava virando rotina, molambentos de toda a empresa se apossando de mulheres do nosso departamento.

– Lembram da Mel? – perguntei.

– E lá é hora de desenterrar? – bronqueou o Amadeu.

– O porteiro topou com ela, outro dia – mencionou o Ralf. – Diz que está meio gelatinosa.

– O féla da puta do T.I. deve ter usado bastante – espumou o Amadeu.

Pesou o silêncio sobre nós. Desistíramos dos pratos. Amadeu sorvia com raiva sua Fanta Uva, batia o copo na mesa.

– Não sei o que acontece – desabafei. – Somos boa pinta, temos bom papo, conseguimos alguma repercussão fora da empresa.

– Já disse que é carma – insistiu o Ralf. – Ou seria darma?

– Merda nenhuma – bradou o Amadeu. – Essas putinhas gostam de quem faz uma social, finge desinteresse. E não temos paciência.

– Somos diretos, e diretos como somos, morreremos – conclamei, recordando Álvares de Azevedo.

– Peguem o jeito como o pivete do financeiro chegou na safada – disse o Amadeu, e efeminou a voz: – “Uma rosa para outra rosa”... Tomar no rabo, meu amigo.

– Se a gente a conhecesse fora da empresa, talvez comesse – considerei.

– Sem dúvida – concordou o Amadeu, babando uma gota da Fanta sobre a mesa.

Nova rodada de silêncio, olhares perdidos, um desalento, uma letargia terrível. Seria duro levantar da cadeira. Alguém perguntou se podia recolher os pratos.

– À vontade – murmurei, examinando os furinhos do paliteiro.

Mãos começaram a trabalhar na nossa frente. Tamanha era a agilidade com que se moviam, da mesa à bandeja, que me despertaram a atenção
mãos femininas, pequenas e suaves, ótimas ao bater de pau. Ergui a cabeça, dei com os peitos possantes reprimidos no avental, as maçãs coradas, toda uma concentração sisuda na tarefa. Era obviamente nova no restaurante, experiente de empregos anteriores. Arrisquei um olhar para o Amadeu e o Ralf: línguas de fora, arfantes. Receei o que viria, conhecedor dos meus amigos. Veio do Amadeu, quando faltavam apenas dois copos a serem recolhidos:

– Quer ajuda, doçura? Ponho tudo na bandeja pra você.

23.4.09

Dica

Preserve seu otimismo, saia desse buraco de amargura e dê uma passada no recém-inaugurado “Coisas de Carlota”, blog inteligente, despojado e muitíssimo bem escrito pela Carla Kanamaru, jornalista que tive o prazer de conhecer numa editora picareta em que trabalhei, há uns dois anos.

14.4.09

Alô, Thi? Meus parabéns...

Temo a proximidade do meu aniversário. Evidente que não me incomoda a passagem do tempo – ao contrário, abraço a velhice com gosto, só me traz coisas boas. Me doem as vísceras pela iminência de um dos piores constrangimentos a que um homem está exposto: ser parabenizado por algo não feito, por uma não-realização; ser agraciado com base numa convenção servida para atender a indivíduos carentes, necessitados de mimos e tico-ticos – ainda que os gestos não passem, em essência, de gentilezas forçadas, fingidas, vazias.

O que argumentam em defesa da palhaçada? Que é uma comemoração simbólica pelo feliz dia de chegada das pessoas ao mundo? Refuto: nascer não é mérito. De 6,7 bilhões de pessoas no planeta, 6,7 bilhões nasceram. Por que esse fato isolado deveria fazer de alguém especial?

Dispenso. Quando houver motivo – se um dia houver –, apreciaria muito ser cumprimentado. De verdade. Talvez até me emocione, verta lágrimas sinceras. Mas não pela babaquice do aniversário; não pela convenção dos crédulos e sociaveizinhos.

20.3.09

Meu amor pelos carros

Nunca fui chegado em carro. Meu pai, motorista experiente, se descabelava com minha inaptidão ao volante, quando tentava ensinar a “soltar a embreagem devagarinho” e outros preceitos básicos. Até hoje não tenho carta de habilitação. Minha irmã menina-boazinha, que nem por Cristo entrava no Uno comigo e o velho durante as aulas, já tirou carteira inclusive para moto. Meu irmão maluco-das-quebrada, amante da direção, mal completou 18 anos e já tinha comprado (?) o seu possante. Eu, não. Mais do que indiferença, sinto aversão pelos carros como objetos causadores de gorduras localizadas, caos, estresse, covardia e mortes horríveis e tolas.

Já é sabido que o carro funciona como armadura de guerra, sobretudo para indivíduos das grandes cidades. Dentro deles, pessoas comuns se tornam soldados vorazes sedentos por sangue, capazes de passar por cima de qualquer um com seu poder metálico. Todo o território público se torna território deles, soldados em sua luta particular pelo aproveitamento do tempo e pela diminuição das distâncias. No seu caminho, pedestre atravessando a rua representa um estorvo; semáforo vermelho é sinal de agonia.

Gosto de pedalar por aí, com minha bermuda justinha. Não há forma melhor de se constatar a brutalidade em que se transformou o trânsito – e duvido que seja só em São Paulo. Carros, motos e caminhões se engalfinham, se acusam, fecham uns aos outros – todos farinhas do mesmo saco: poluidores, barulhentos, aos milhões. Mais de uma vez estive por ter a cabeça estourada debaixo das rodas de um deles. Meu erro: tentar me meter, com a temível bicicleta, no território privado das ruas e avenidas – sim, privado, tornado posse de quem é impulsionado por um motor enquanto emporcalha o ar e esculpe um corpo lânguido e assexuado.

Pichação sob o Viaduto Nove de Julho, em São Paulo

Haha. Não é assim, claro. Não respondo ignorância com estupidez. Se me xingam ou aceleram bravinhos porque estou muito lento na pista da direita, quase no meio fio, pedalando saudavelmente, sem poluir, combatendo o sedentarismo, em um meio de transporte que ocupa um sexto do espaço de um carro, tudo o que faço é sorrir. Às vezes dou tchazinho, se é mulher mando beijo, giro meus mamilos em infalível sedução. Afinal, o nervosismo é compreensível: são tão poucas as áreas destinadas a eles na cidade...

E não me divirto só nessas horas. Me acabo de prazer principalmente quando deparo com certas cenas... todos os dias.

Metrô é muito cheio, né? Ônibus é de péssima qualidade, né? Trem demora demais, né? E você não se mistura? Valoriza o conforto? E ainda por cima tem pressa? Oh dhu-dhu...

26.2.09

Comigo não

da Folha Online
26/02/2009 - 15h40

Palhaços. Não vão me coagir com esse papinho de artista pé sujo. Vou assistir e ao final terei prazer em sorrir à moça do guichê e passar reto.